segunda-feira, 10 de setembro de 2012

(in)Potência.
Tipo bomba explodindo um vazio.

Sentinelas vigiando o nada.
E nós, sob vigia.

(a)Provação
Tipo anjo de asa quebrada.
Precisa voar e não sai do lugar.
E nós, sob proteção.

(a)Feição
Tipo sua cara transfigurada.
Anti-amor, ansiosa pelo tapa.
E nós, sobre humanos.

(a)Tenção
Tipos nossos braços rijos,
Travando guerra.
E eu, um monstro.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Pela manhã, tinha uma pássaro se alimentando de migalhas de pão em cima da mesa da cozinha. No céu, havia um azul beirando a beleza perfeita. Pouquíssimas nuvens. O ar fresco. Brilho de sol iluminando naquela porcentagem quase exata.

É a vida ensaiando abril.
Meu coração ensaiando dias ainda mais felizes.



quarta-feira, 21 de março de 2012

O ar. Estranho
do quarto.
O par. Estranho
da cama.
O (p)ar sobra,
paira.
Silêncio ensurdecedor.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Tentando a profissão Ghost Writer

Cintilante é palavra bonita. E quando está assim, descrente de todo ser vivente (que não é redundante dizer, pois há muitos e muitos seres que não levam vidas... levam algo que não merece ser observado, dito, pensado) a sua volta, se apega no que lhe parece menos tedioso. Acho que é caso de defesa de organismo.

"Cintilante é palavra que sempre achei bonita", repete pra si em silêncio. É adjetivo de coisa que brilha. Destaca. Tem luz nem que for emprestada por purpurina fabricada nas beiradas do terceiro mundo e subemprego. Cintilante é só palavra bonita - repensou, quando vislumbrou o último esmalte cor de bolinha de natal que a manicure com tanta insistência a convenceu usar.

Cintilante é sorriso de quem usa colar de brilhante em baile de 1920. Que tem luva, chapéu e até um ou dois disputando atenção naquele salão imenso. Brilhante, diamante, cintilante. Tudo palavra bonita. Que menininha aprende nas histórias infantis desde sempre. Deve ser isso. Tudo que vem junto com o final feliz. Ilusão vendida. Comprada. Muito da mal usada. Obsoleta. Démodé. Bem breguinha. Tipo algum texto da Clara Dawn recheado de epifanias líricas. "Por Deus", quase caí lá!









quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Rotina possui sua magia, com todos aqueles ares de seguranças e certezas, que iludidamente nos vinculamos, na esperança de tapar alguns buraquinhos.
Então criamos alguma perfeita para nós. Alguma, nem que seja uma, que até então nos pareceu sólida e perfeita demais. Basta abrir os olhos e seguir aquele roteiro cuidadosamente preenchido dia após dia, resumindo a vida na mais permanente estabilidade.

...

Essa coisa de beber só uma cerveja depois do trabalho, nunca fez parte da rotina dela. E ela leu Bob Dylan, onde estava escrito Bossa Nova.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Show me from behind the wall

É verão com cara de inverno de outras estações e meridianos por aqui, é só chuva e com chuva se vai longe. O cheiro de mofo concede as roupas e as paredes um ar de espera resignada. Assim como o que tem no rosto pelo que vem em frente.

'You don't know me at all' vai sendo ecoado pela sala com aquela leveza de carne macia sendo levada e amortecida pelo espaço. Apanhada pela doçura de quem não a compreende, mas que jura a amar acima de todas as coisas, de todas as carnes. Com as mãos frias, mas com o coração fervendo, se der na veneta ela vai. Isso porque, devagar quase parando vai sentindo tudo em 78 por segundo rotações.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Amaralina e Ana Beleza

Eram duas histórias que se emaranhavam. Tipo de coisa normal, quando se mistura o sangue. Nada que representasse complicações na vida delas. Tratava-se apenas do emaranhamento da convivência. Cruzar no café da manhã, dividir chuveiro, emprestar dinheiro ou maquiagem, concordar sobre os destemperos da mãe, discordar de outras tantas... 
De tão emaranhado, Amaralina ia descendo a ladeira de 40 minutos rumo ao "lar doce lar", com um peso insustentável no corpo. Estava tudo tão mais pesado que de costume. Até a belezura de céu que se estampou depois da chuva, não mereceu mais que uma frase em dó menor de sua boca. Seus olhos iam lacrimejando de tempo em tempo, quando pensava que chegaria em casa, e nao teria nem a presença da ausência dela por causas dos compromissos do dia, enquanto ia assoviando e cantando baixinho pra si mesma alguma coisa que fazia lembrar-se de si, e que cabia tão bem nas medidas da situação "Amaralina via de lá/Lágrimas de assustar derramava ela/A assombração a piar/Naquela sentinela via assoviar/Sopro cor de anilina de cor que não se via/via Amaralina /A tal meniiiiiiiiiiina de áaaaaaguas revirar
De fogo ia criar /De luz uma passarela/Láaaaaa da janeeeeeeela /Cor de anilina/Cor que não se via/via Amaralina/Cor de anilina de cor que não se via via Amaraliiiiiiiiina."

É que Ana Beleza, resolveu casar pela segunda vez. E tiveram só um ano pra conviver todos os dias.  Pra Amaralina, um ano é coisa pouca, em se tratando da abundância de emoções que tem pra viver, sentir, compartilhar. 
Quando voltou pra casa, Amaralina lembrou que tinha esquecido que tinha saudade, e sem entender porque, tratou logo de alinhar sua vida com a da irmã. Encorajou-se. Deu alguns passos adiante. Dançaram, beberam, riram, choraram. Riram muito mais do que conseguiram nos ultimos sete anos anteriores. Retomaram duas vidas meio perdidas, se encheram delas... Resgataram um amor que sempre foi demonstrando pelas metades. Devia ser medo, sei lá.

"Caminho longo esse de casa"...
 Desenterrou muita melancolia do peito. Sentir que estava indo pra uma casa que não conseguia sentir mais que era sua, também doía e tornava tudo tão mais esquisito. Estendeu o pensamento pra tantos outros lugares. 
O lugar dos 30 anos que quer ter 30 anos. A ida de uma, mostrou que o ciclo da outra também havia terminado. Essas coisas que ficam presas no tempo e espaço atemporal e imaterial, a mercê de nossas interpretações, são mesmo capazes de mover céus e terras. Não achamos nossos destinos em livros. Vamos bordando nossas vidas em algum material sublime, com linhas de cetim, recolhendo desses lugares que vamos apalpando com o as mãos do pensamento, conclusões que movem nossos moinhos. 
E os moinhos dessas duas garotas vão girando agora no mesmo sentido, que não duvido ser anti-horário, mas movem-se na certeza de que bem do lado mesmo, está o outro, compartilhando do mesmo vento e das mesmas intempéries. 

 Dificuldade de acordar em lugares estranhos. Os avisos prévios, andam cada vez mais curtos. Definitivamente Amaralina se perde com tudo isso. Vem a metamorfose, carrega tudo embora, e ela, tentando catar os últimos pedaços soltos no vento. Tentando resgatar e lembrar o que é ser ela mesma, e assim quem sabe, achar uma pista de onde deve ir.
Mas isso fica pra semana que vem, sabe se lá quando, talvez amanhã. 
Agora só consegue chegar na melancolia que veio com a anunciação da mudança, e encher o olhos de lágrimas, quando lembra que vai chegar em casa, e Ana Beleza, terá levado o resto de suas coisas. 
Um quarto vazio. 
O eco ecoando saudade.
Um pedaço de vida que passou.