terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Show me from behind the wall

É verão com cara de inverno de outras estações e meridianos por aqui, é só chuva e com chuva se vai longe. O cheiro de mofo concede as roupas e as paredes um ar de espera resignada. Assim como o que tem no rosto pelo que vem em frente.

'You don't know me at all' vai sendo ecoado pela sala com aquela leveza de carne macia sendo levada e amortecida pelo espaço. Apanhada pela doçura de quem não a compreende, mas que jura a amar acima de todas as coisas, de todas as carnes. Com as mãos frias, mas com o coração fervendo, se der na veneta ela vai. Isso porque, devagar quase parando vai sentindo tudo em 78 por segundo rotações.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Amaralina e Ana Beleza

Eram duas histórias que se emaranhavam. Tipo de coisa normal, quando se mistura o sangue. Nada que representasse complicações na vida delas. Tratava-se apenas do emaranhamento da convivência. Cruzar no café da manhã, dividir chuveiro, emprestar dinheiro ou maquiagem, concordar sobre os destemperos da mãe, discordar de outras tantas... 
De tão emaranhado, Amaralina ia descendo a ladeira de 40 minutos rumo ao "lar doce lar", com um peso insustentável no corpo. Estava tudo tão mais pesado que de costume. Até a belezura de céu que se estampou depois da chuva, não mereceu mais que uma frase em dó menor de sua boca. Seus olhos iam lacrimejando de tempo em tempo, quando pensava que chegaria em casa, e nao teria nem a presença da ausência dela por causas dos compromissos do dia, enquanto ia assoviando e cantando baixinho pra si mesma alguma coisa que fazia lembrar-se de si, e que cabia tão bem nas medidas da situação "Amaralina via de lá/Lágrimas de assustar derramava ela/A assombração a piar/Naquela sentinela via assoviar/Sopro cor de anilina de cor que não se via/via Amaralina /A tal meniiiiiiiiiiina de áaaaaaguas revirar
De fogo ia criar /De luz uma passarela/Láaaaaa da janeeeeeeela /Cor de anilina/Cor que não se via/via Amaralina/Cor de anilina de cor que não se via via Amaraliiiiiiiiina."

É que Ana Beleza, resolveu casar pela segunda vez. E tiveram só um ano pra conviver todos os dias.  Pra Amaralina, um ano é coisa pouca, em se tratando da abundância de emoções que tem pra viver, sentir, compartilhar. 
Quando voltou pra casa, Amaralina lembrou que tinha esquecido que tinha saudade, e sem entender porque, tratou logo de alinhar sua vida com a da irmã. Encorajou-se. Deu alguns passos adiante. Dançaram, beberam, riram, choraram. Riram muito mais do que conseguiram nos ultimos sete anos anteriores. Retomaram duas vidas meio perdidas, se encheram delas... Resgataram um amor que sempre foi demonstrando pelas metades. Devia ser medo, sei lá.

"Caminho longo esse de casa"...
 Desenterrou muita melancolia do peito. Sentir que estava indo pra uma casa que não conseguia sentir mais que era sua, também doía e tornava tudo tão mais esquisito. Estendeu o pensamento pra tantos outros lugares. 
O lugar dos 30 anos que quer ter 30 anos. A ida de uma, mostrou que o ciclo da outra também havia terminado. Essas coisas que ficam presas no tempo e espaço atemporal e imaterial, a mercê de nossas interpretações, são mesmo capazes de mover céus e terras. Não achamos nossos destinos em livros. Vamos bordando nossas vidas em algum material sublime, com linhas de cetim, recolhendo desses lugares que vamos apalpando com o as mãos do pensamento, conclusões que movem nossos moinhos. 
E os moinhos dessas duas garotas vão girando agora no mesmo sentido, que não duvido ser anti-horário, mas movem-se na certeza de que bem do lado mesmo, está o outro, compartilhando do mesmo vento e das mesmas intempéries. 

 Dificuldade de acordar em lugares estranhos. Os avisos prévios, andam cada vez mais curtos. Definitivamente Amaralina se perde com tudo isso. Vem a metamorfose, carrega tudo embora, e ela, tentando catar os últimos pedaços soltos no vento. Tentando resgatar e lembrar o que é ser ela mesma, e assim quem sabe, achar uma pista de onde deve ir.
Mas isso fica pra semana que vem, sabe se lá quando, talvez amanhã. 
Agora só consegue chegar na melancolia que veio com a anunciação da mudança, e encher o olhos de lágrimas, quando lembra que vai chegar em casa, e Ana Beleza, terá levado o resto de suas coisas. 
Um quarto vazio. 
O eco ecoando saudade.
Um pedaço de vida que passou.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Visitinha rápida de Marcico

_ Existe um problema... Além de eu te achar linda e de te amar muito, você é muito gostosa... E eu demonstro muito melhor meu tesão que o meu amor Valentina...

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Tinha um andado meio torto e meio arrastado (já contava suas botas sempre gastas do lado de dentro).
O braço sempre mexia mais que o necessário, pra acompanhar todo o blá blá e o requebrado dos seus caminhos sem propósito.
Sempre foi mais "The Ocean" do que "Dazed and Confused". Muito mais o vento que sacudia a poeira da calçada do que a enxurrada que levava todo aquele entulho rua abaixo.
Com todo aquele cabelo que se bagunçava enquanto ia andando,
(sem dúvida todo aquele vento a fazia sentir-se mais linda),
ia bagunçando também toda alma de vivente que permitisse pelas bandas do lado de lá da calçada...
Êhêeee Alzira...
Não tinha tempo ruim que aumentasse o cumprimento de sua saia.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Existia uma bunda. Existia também uma buceta cabeluda e com alguns problemas no percurso. Só não sabia se tais dignissimos elementos giravam em torno do coração, ou o coração em torno deles. Ficava na dúvida e não era porque queria. Ela se sentia toda maçã (seios, face, pernas etc), enquanto queria se derramar em calda de framboesa.
Sentado a margem do colchão datado de mil novecentos e bolinha, tinha um cara. Esse cara, encarava o tempo, sempre de mãos preenchidas (ou era seu cigarro, ou o copo de Bacardi, ou as duas coisas, quando muito as batatas da perna dela, as coxas, os pés). Encarava o tempo e não olhava nos olhos dela. Não olhava nos olhos dela!!!!!!!!!! Isso marcou pra sempre, mesmo ainda não tendo passado 24 horas. Encarava com o rosto imóvel, olhar longínquo. E dentro da imobilidade de seu semblante, ela notava um redemoinho dentro dele. Notava toda inquietação, que o fazia descompreender-se diante de tudo que morava ali na sala escura.
Ela pensava o tempo todo que ele se contorcia de amor. O tal do Amor estava tão forte que estava, até!, doendo. E a bunda que jurava nunca mais encostar. TSc TSc. Assunto que deu pano pra manga: promessa dura de cumprir. O amor que o fazia nascer tantas e tantas vezes por dia, cada vez mais inteiro e carregado de caixinhas surpresas. Caixinhas cheias de versos, saltando em papéis. Caixinhas cheias de requebrados e passos de valsa, saltando pelas sua cintura e longos cabelos. Caixinhas cheias de planos para o futuro e de futuro incerto. Caixinhas cheias dela com ela e mais uma dela, perfumada e macia. E quando mais a olhava, ficava com aquela mesma cara da sua ovelha com dúvida. Vale lembrar que essa ovelha nem cara tem. Então sintam-se a vontade para darem a cara que bem entenderem.
Marciano alguma coisa cheia de M's afora, e um apelido para poucos. Heterônimos a parte, o cara não estava sozinho: tinha ainda um alter-ego que zanzava pelo mesmo colchão-banheiro-sala, deixando a cabeça dela ainda mais confusa. Não adiantava dizer nada, que ia lá e a remendava. Frases curtas, "de efeito", e com um sotaque que ele jura dizer ser "Sotaque de Russo Bêbado" e que pra ela não passa do Zé Buscapé quando acabou de acordar. Mas poesia por poesia, lirismos por lirismos, bêbado por bêbado, ficamos então com o sotaque Russo, para não desapontá-loS.

Voltemos então ao Amor porque naquela buceta cabeluda, ou na bunda levemente arrebitada, não está guardada sua "sinceridade extrema", taxada de caô, tão sinceramente por ele. Aquela buceta e aquela bunda, desprendem todo tipo de reação em cadeia, que hoje já foge do seu controle.

...

A Lua descia às pressas, tenra e amarelo-ouro, abandonando a vista da janela. Ia o quanto antes, pra não ter que assistir mais, o encontro em vão dos três, enquanto qualquer tentativa de amor, virava fumava de cigarro ou canções refinadas, pra um cenário muito mal usado.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

_ Estão falando na portaria, nos elevadores, por toda vizinhança, que o doido do 507 anda batendo na mulher...
_ Não tenho culpa se você é a coisa mais cheirosa e gostosa desse mundo, Valentina!

...

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Poeta com café e cigarro

Pra contrariar finalmente a sina de Valentina, a guitarra do Poeta está a quatro anos no conserto. Até um possível violão fora extraviado por um maluco qualquer, quando o mesmo estava a caminho do seu futuro dono.
Quando a quis, ela não quis. Teve que querer mais umas três vezes, pra se dar conta de ele era potencialmente um romance daqueles avassaladores. Na verdade, precisou ele ter uma crise sartreana e sumir por alguns instantes, fazendo nascer no estômago dela algo gelado e que borbulhava. Deu medo de ele ser mais um daqueles figuras, que vem, colocam o mel na boca e depois somem.
Quando finalmente, resolveu se alinhar numa roupa mais ou menos, e trajar sua calcinha mais velha e frouxa listrada, pra ir de encontro com a melhor trepada da sua vida, dali nunca mais teve vontade de sair.
Valentina encantou-se, e mal sabe ela onde começou aquela coisa toda. Talvez teria sido a iguaria por ele apresentada do bar sujo ao lado, ou então ter lido seus textos incríveis. Até mesmo o fato do Poeta ter uma cara de vagabundo nata, que se mistura com sua estante de livros e sua coleção de vinil. Tem até um com poesias recitadas do Drummond. Ah, talvez seja demais pra um coração tão pequeno.
Esse poeta vem cuidando dela, regando flor por flor nascida da necessidade da sua presença.
Uma xícara de café com açúcar recentemente adquirido, especialmente pra ela. Esse Poeta além de cultivar algumas manias peculiares, não consome açúcar. Talvez ele pense que isso vai amenizar seus problemas de saúde, contrabaleceando com aquele torresmo gigante e sua dose de Gin diária. Uma camiseta de um preto descorado no canto do colchão da sala, tamanho P. Um corpo que guarda definitivamente o cheiro mais familiar da sua coleção infinita de cheiros.
Aquele cara, O Poeta, tem uma coisa que junta com o cheiro e com um cigarro atrás do outro que fuma, que a faz se sentir muito bem, como se retornasse a algum lugar de origem. Mautner e Noriel Vilela. Duas cafeteiras, sendo uma italiana e uma francesa. Uma máquina de expresso que ainda não funciona. Lima na geladeira. Uma boca carnuda e mãos imensas. E um cérebro de dar tesão na maior das frígidas.

Agora é assim, por um lado, acabou o sossego. Foi fazer um prato pra jantar e achou a comida pouco temperada. Colocou pimenta forte. Ainda assim estava sem graça. Pegou banana, descascou,colocou no prato. Ainda assim, faltava algo. Levantou e foi pra debaixo do chuveiro. A áua também não saciou sua inquietação. Tentou masturbar-se. Não conseguiu porque tinha algo que incompletava seu desejo.
Notou que não era desejo de comer, nem de nada.
Era só a falta do seu Poeta, ali do lado, acarinhando seus minutos com sua voz tenra e sua barba bagunçada, seu cheirinho suave, seu olhar miúdo que é de ventinho das oito da manhã.

É...
Acho que Valentina precisa urgentemente de uma cartomante.